Com a palavra

Nelson da Silva Leme

Nelson da Silva Leme

O vice-presidente do Grupo Termomecanica trabalhou por 20 anos ao lado de um dos mais talentosos empresários do País: o engenheiro Salvador Arena, fundador da maior empresa brasileira produtora de semielaborados de cobre e suas ligas. Neste artigo, Nelson fala sobre sua trajetória na Termomecanica e comenta o inovador modelo de gestão da companhia, pautado na meritocracia, em vigor desde a década de 1960 – época em que sequer havia legislação a respeito no Brasil.

TM Termomecanica

O Dr. Salvador Arena sempre foi um homem à frente de seu tempo. Tinha uma visão capitalista-socialista, preocupava-se com o bem-estar de seus funcionários e familiares, concedendo benefícios diferenciados em relação às práticas do mercado. Criou uma cooperativa que vendia alimentos, roupas e bens de primeira necessidade a preço de custo; uma cooperativa de crédito que tinha as menores taxas de juros do mercado; uma clínica médica própria que atendia aos funcionários e dependentes na própria fábrica, condução e alimentação totalmente gratuitas, entre outros benefícios, e foi pioneiro na premiação dos funcionários na forma de participação nos lucros, antes mesmo de ser cogitado esse tipo de benefício no Brasil. Além do 13º salário habitual, ele adicionou participações nos resultados da empresa, variando conforme o desempenho de cada ano. Em um período excepcional, os funcionários chegaram a receber 25 salários em um ano.

Salvador Arena adotou o Brasil como a sua pátria e reinvestiu todo o lucro que obteve com o sucesso empresarial em atividades sociais de amparo, ajuda aos funcionários e seus familiares, bem como à coletividade carente da região. Criou, em 1964, a Fundação Salvador Arena, braço social da empresa Termomecanica e herdeira universal de todo o patrimônio pessoal do engenheiro e hoje a controladora integral do grupo. A Fundação atua em diversas atividades assistenciais, tendo como foco principal a educação, por meio do Centro Educacional da Fundação Salvador Arena, que funciona em São Bernardo do Campo (SP), onde é oferecido ensino de alto nível e gratuito para cerca de 2.500 alunos, distribuídos nos níveis Fundamental, Médio e Superior.

O engenheiro Arena tinha um estilo único de gestão, não encontrado nos manuais de administração. Com ele, a meritocracia era exercida ao extremo: apostava em seus colaboradores, dando oportunidade de crescimento profissional, promovendo-os aos mais altos cargos, com base em seu comprometimento, dedicação e lealdade, independentemente de sua formação técnica e acadêmica. O resultado sempre foi positivo para que o funcionário vestisse a camisa da empresa e procurasse retribuir, empregando toda a sua energia e capacidade para não decepcionar o comandante.

Comigo não foi diferente de muitos outros colaboradores da Termomecanica. Depois de algumas tentativas frustradas de entrar para o time da empresa – até porque o turnover era muito baixo –, comecei atuando do departamento de auditores internos num momento de reestruturação da área. Certo dia, quando executava um trabalho extra num sábado pela manhã, tive a oportunidade, pela primeira vez, de um contato direto com o grande chefe. Era comum a presença dele na fábrica, mesmo nos fins de semana, para supervisionar a produção de materiais especiais ou a construção de máquinas para expansão da produção – uma das paixões do engenheiro Arena, que, entre centenas de máquinas "made in Termomecanica", projetou e construiu uma prensa de 7.000 toneladas de capacidade, uma das maiores já construídas no mundo e, até hoje, um dos principais equipamentos da empresa.

Por alguns minutos, fui sabatinado por ele, quando tive a oportunidade de falar sobre a minha origem humilde, filho de um operário e recém-formado no curso de Administração de Empresas. Falei da minha satisfação por ter sido admitido na Termomecanica, um sonho desde a época do Colegial, quando um colega de classe tinha um irmão que trabalhava na empresa e comentava sobre o salário e os benefícios diferenciados que a Termomecanica oferecia. Após esse inesperado contato, tive dúvidas sobre qual teria sido sua avaliação sobre mim. Passado algum tempo, porém, pude perceber o resultado: tive a oportunidade de ser promovido a chefe de setor e, posteriormente, a diretor da companhia.

Por 20 anos, convivi e aprendi com o mestre Salvador Arena, um homem conservador, perfeccionista e muito exigente, mas também muito humano, sempre preocupado com o bem-estar de seus funcionários, da população carente e com o futuro do País.

Na década de 1980, as empresas passaram por grandes desafios: as crises econômicas e os planos governamentais. O Dr. Arena sempre tinha uma solução para os problemas estratégias para superar as dificuldades. Cada decisão arrojada que tomava sempre trouxeram ensinamento para os diretores, principalmente para os mais jovens e menos experientes.

Foram anos de muito trabalho e dedicação nas áreas de Auditoria Interna e Financeira. Após 15 anos de trabalho intenso, tivemos uma ruptura no relacionamento profissional. Sentindo que o grau de confiança e a expectativa do meu desempenho estavam abaixo do esperado pelo chefe, pedi demissão da Companhia. Um ano depois, fui convidado para voltar a trabalhar na Termomecanica. Aceitei imediatamente, sentindo que ainda havia confiança em mim e consideração pelo meu trabalho. Em pouco tempo, recuperei a posição de diretor da companhia e membro do Conselho Curador da Fundação Salvador Arena, grupo seleto de colaboradores da mais alta confiança de Arena e indicados por ele para dirigir o destino da empresa e da Fundação na sua ausência.

Foram mais alguns anos de trabalho até o dia 28 de janeiro de 1998, quando Salvador Arena, após um dia normal de trabalho, foi vítima de um infarto fulminante, deixando, além da sólida estrutura econômica e financeira da Termomecanica e da Fundação, um plano estratégico de gestão para a continuidade dos negócios da companhia e administração do patrimônio da entidade, por meio do grupo de conselheiros nomeados por ele.

Decorridos 15 anos da morte do fundador, o crescimento da empresa e a expansão das atividades da Fundação demonstram a assertividade da estratégia adotada e o grande comprometimento do grupo de conselheiros que, hoje, se preocupa com a consolidação de sistema de governança corporativa – visando à melhor e mais segura gestão patrimonial – e do processo de sucessão para a perpetuidade do Grupo.

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