Com a palavra

Dayse Gomes

Dayse Gomes

Na rotina como coach e consultora de Desenvolvimento Organizacional e Humano, são recorrentes os questionamentos, dúvidas e frustrações dos profissionais – muitos deles altos executivos. Segundo Dayse Gomes, motivação e sentido estão no cerne da nossa relação com o trabalho. Mais do que uma rotina, é preciso substituir o trabalho pela ideia de obra: algo que você constrói, aquilo em que você se percebe todos os dias.

Fundação Getulio Vargas IBMEC - Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais

Ao saber e ler a respeito da trágica morte do ator Philip Seymour Hoffman, de 46 anos, vítima de uma provável overdose de heroína, de pronto me remeti a uma pergunta inquietante e frequente na minha rotina de coach: o que é ter sucesso na carreira?

Se analisarmos o histórico da carreira de Hoffman, a morte parece uma incoerência. Indicado quatro vezes ao Oscar, além de levar o prêmio por "Capote" (2005), é lembrado pela Academia por suas atuações como coadjuvante em "O Mestre" (2012), "Dúvida" (2008) e "Jogos de Poder" (2007). Também foi indicado ao Globo de Ouro pela atuação em "A Família Savage" (2007) e três vezes ao Tony Awards, com destaque para a peça "True West”, encenada na Broadway.

Será que um ator incrivelmente talentoso, com uma carreira brilhante, reconhecido e aclamado pelos fãs e pela crítica especializada, não se sentia realizado e feliz com a própria vida?

Ainda envolvida por essa reflexão, percorri os olhos pelas notícias – que, de tão frequentes, já se tornaram diárias – a respeito do astro teen Justin Bieber. Jovem e ainda no início da carreira, recentemente Bieber abandonou a fama de bom moço e passou a se envolver em escândalos, prisões, brigas, drogas e agressões. Ao que tudo indica, terá um fim não muito diferente de Hoffman e de tantos outros talentos, do mundo das artes e da música, que se despediram precocemente da vida.

Com tristeza, estendi a minha reflexão sobre realização e felicidade para o mundo dos negócios, para o mundo corporativo, ambiente em que atuo, e pensei sobre a realidade dos vários profissionais e executivos que, apesar de aparentemente bem sucedidos, encontram-se frustrados, deprimidos, pressionados e insatisfeitos com as suas carreiras e com as suas vidas. E, muito frequentemente, também se refugiam em diferentes tipos de dependências para lidar com o ambiente competitivo e amenizar o estresse – álcool, ansiolíticos e, até mesmo, drogas ilícitas. Além de, invariavelmente, se distanciarem da família, do lazer e descuidarem da saúde e do próprio bem-estar. Desta vez, me fiz a seguinte pergunta: por que, em alguns casos, o sucesso na carreira atrapalha o sucesso na vida?

Na busca pelo entendimento, lembrei-me de uma passagem do livro “Qual é a sua Obra?”, do filósofo, professor, consultor e conferencista Mario Sergio Cortella, que aborda o quanto é necessário substituir o trabalho pela ideia de obra, que os gregos chamam de poiesis, que significa minha obra, aquilo que faço, que construo, aquilo em que me vejo.

Segundo Cortella, precisamos nos ver naquilo que fazemos. Do contrário, ficamos alienados. Todas as vezes em que aquilo que você faz não permite que você se reconheça, seu trabalho se torna estranho. Então, o trabalho exige o próprio reconhecimento – conhecer de novo e, somente assim, pode ter algum sentido.

Com base nas minhas pesquisas e na minha prática de coaching, identifico quatro aspectos que funcionam como fontes essenciais de motivação e sentido para o trabalho. Dois deles são extrínsecos, tratam o trabalho como meio para um fim, como, ganhar dinheiro e alcançar p status social, seja em termos de prestígio, de hierarquia ou poder. Já os outros dois, definidos como intrínsecos, valorizam o trabalho como um fim em si mesmo: fazer a diferença para as pessoas e para o mundo; fazer o que se gosta, seguindo as paixões e os talentos. Nesse sentido, é possível afirmar que não existe um único modelo de carreira e que as motivações de cada individuo variam, assim com as suas frustrações e necessidade de mudança.

Seguindo a trilha das motivações e da realização, também concordo com Christian Barbosa, especialista em gerenciamento do tempo e produtividade pessoal e autor do livro “Equilíbrio e Resultado”, quando diz que a vida precisa ser vista como uma balança: em um dos pratos está o equilíbrio – tudo o que fazemos para aumentar nosso bem-estar – e, no outro, o resultado – todos os objetivos que conseguimos alcançar. Em outras palavras, equilíbrio tem a ver com quem você quer ser e resultado, com o que você quer ter.

Bem, ao que tudo indica, na maioria dos casos, o que vemos são pessoas que, apesar de possuírem aparentes bons resultados na sua carreira, não investem em equilíbrio em suas vidas. Vivem uma vida automática, de aparências, direcionadas pela fama, pelo glamour ou pelo poder. Mas carregam dentro de si questionamentos, inseguranças, medos e aflições não reveladas. Permitem que O QUE SE QUER SER seja substituído por O QUE SE QUER TER.

Na prática, o SABER SER representa mais do que um trabalho, do que uma carreira. Significa uma identidade de vida, que nada mais é do que aquilo que a pessoa é, seus valores, as direções que deseja seguir e o seu o comprometimento com algum papel específico, o que muitas vezes chamamos de ideologia.

A formação dessa identidade de vida recebe a influência de fatores intrapessoais (as capacidades inatas e as características da personalidade), de fatores interpessoais (identificações e relações com outras pessoas) e de fatores culturais e sociais. Portanto, quanto mais desenvolvido for o sentimento de identidade, mais uma pessoa é capaz de se reconhecer, de se valorizar e, consequentemente, mais claramente reconhece as suas possibilidades, sendo capaz de lidar melhor com conflitos e decisões.

Longe de ser reducionista ou determinista, amplio ainda mais a minha reflexão com a certeza de que é mais do que necessário pensar na vida, e não somente na carreira, como uma grande obra. Concordando com Cortella, há de se admitir que, quando o modelo de vida leva a um esgotamento, é fundamental questionar se vale a pena continuar no mesmo caminho.

Para ajudar você a realizar a sua reflexão sobre o seu sucesso na vida, ficam aqui três boas dicas e duas boas leituras.

Dicas:

1. Tire um tempo para analisar a sua história de vida. Faça uma relação da sua vida com os acontecimentos ao seu redor. Com o que está satisfeito? O que gostaria de mudar?

2. Projete sua vida dez anos a frente. Visualize como estará. Imagine o que de bom terá atingido e como estará se sentindo. Pense no que você está disposto ou não a abrir mão a partir de agora para alcançar essa meta.

3. Repense os seus objetivos pessoais e profissionais. Avalie se os mesmos estão integrados e coerentes com o estilo de vida que você valoriza e deseja. Pergunte a si mesmo se vale a pena seguir o mesmo caminho ou se está na hora de buscar novas opções.

Livros:

• Barbosa. C. Equilíbrio e Resultado: Por que as pessoas não fazem o que deveriam fazer? Editora Sextante, 2012.

• Cortella, M.S.Qual é a tua obra: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Editora Vozes, 2012.

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