Com a palavra

Hanna Meirelles

Gerente de Educação e Gestão de Talentos da Vale. Cursou Administração de Empresas na Universidade Federal da Bahia e pós-graduação em Desenvolvimento de Gestão na University of the Witwatersrand, África do Sul.

  • A minha vontade de conhecer outras culturas e me comunicar com elas se iniciou na adolescência, lendo livros de autores estrangeiros que narravam suas historias em vários países diferentes ao mesmo tempo. Felizmente, continuei essa jornada por meio do trabalho na AIESEC, a maior organização estudantil mundial que desenvolve lideranças através de intercâmbios profissionais. Trabalhando seis anos nela, além de absorver informações sobre o mundo, dialoguei com ele, interagi com aspectos inesperados da vida e me preparei para um caminho sem volta.

  • Quando saí do Brasil pela primeira vez, embora não falasse fluentemente nenhum dos onze idiomas oficiais do meu país de destino, a determinação e a paixão pelo novo me fascinavam. Meu objetivo era ter uma experiência internacional, sonho de infância e tão esperado durante os anos de faculdade. Fui trabalhar como consultora de planejamento numa empresa internacional por um ano, no seu escritório na África do Sul, em Johanesburgo, onde eu pude exercitar as habilidades aprendidas durante o curso de Administração e, principalmente, aprimorar o inglês.

  • Em meu primeiro dia na empresa, logo percebi que havia, no mesmo prédio, o escritório de uma empresa brasileira – e minha reação foi imediata: "Deus ajude para que eu não encontre nenhum brasileiro, pois não quero falar português. Quero aprender tudo sobre a cultura local e falar inglês com sotaque sul-africano", disse a um colega de trabalho tunisiano, mal imaginando que existiam pelo menos onze possibilidades diferentes de me comunicar naquele país, ainda que todos estivessem falando o mesmo idioma durante uma reunião. Meus desafios de comunicação se iniciavam com a multiculturalidade existente no meu novo dia a dia.

  • Um ano de repente se multiplicou. Quando olho para trás, hoje, vejo que passei os últimos oito anos construindo uma carreira no mínimo diferente, mudando em média a cada um ano e meio de um país para outro, desafiando meus limites e valores, aprendendo lições que nenhuma outra experiência poderia me trazer.

  • O que eu percebi, ao longo dos anos, é que não falar o idioma específico de um local fluentemente nunca foi o fator determinante para o sucesso no trabalho, embora tenha sido importante. As pessoas compreendiam o que eu queria dizer e que, embora eu estivesse ali, negociando e discutindo questões de igual para igual, eu era estrangeira, e que a minha preocupação em errar uma palavra ou pronunciar algo de forma equivocada e ser mal interpretada era desnecessária.

  • Aprendi o significado da palavra “tolerância” e passei a retribuir com ela, onde quer que eu fosse. A maneira como eu me colocava, primeiro escutando muito, ouvindo todas as ponderações antes de colocar minhas opiniões ou de dar qualquer direcionamento, mostrando uma capacidade de adaptação e flexibilidade aos cenários encontrados, traria muito mais resultados na minha vida profissional do que eu poderia imaginar.

  • Quando queremos desbravar os caminhos do mundo, a comunicação intercultural é a chave.

  • Chamo de comunicação intercultural a capacidade de estar aberto a tudo o que for diferente e novo, sem julgamentos, sem preconceitos, procurando ouvir, entender, refletir sempre e utilizar seus próprios traços culturais a seu favor. Isso ficou explicito para mim numa experiência a trabalho na Guiné, quando eu não falava o idioma local e fui abordada por três homens armados numa fronteira.

  • Inicialmente, tentaram me intimidar, mas acabaram rindo por vinte minutos comigo após observar meu passaporte brasileiro e recitar os nomes de todos os grandes jogadores de futebol do nosso pais.

  • Eles, percebendo que eu gostava do assunto, decidiram que eu estava apta a passar daquele ponto em diante, sem me cobrar nenhum tipo de "pedágio" – o que foi solicitado a outras pessoas que vieram logo atrás de mim. Sorte é que, naquela época, eu já tinha alguma sensibilidade para entender que, mesmo quando não sabemos tudo sobre um esporte ou um assunto predominante da nossa cultura local, estudar um pouco a respeito pode ajudar muito profissionalmente – e até salvar de armadilhas e enrascadas. Anos depois, tive uma experiência semelhante na Austrália, mas dessa vez o esporte foi o UFC, e o prêmio foi o de conseguir uma reunião tão esperada que gerou ótimos frutos posteriormente.

  • De Moçambique à Austrália, do Canadá ao Chile ou do Brasil à China. A habilidade em criar e manter relacionamentos com diferentes grupos e pessoas e se ajustar a situações desconhecidas também contribuem para o sucesso numa carreira global. Penso que, além de flexibilidade, capacidade de se relacionar e a abertura ao novo, a simplicidade e a aceitação do outro e de circunstâncias a que não estamos acostumados são competências fundamentais para uma jornada gratificante e apaixonada pelo mundo.

  • Vi como várias das organizações onde e com que trabalhei se empenharam fortemente para entender os aspectos culturais dos locais onde estavam presentes. Vi como muitas delas tentaram levar seu "jeitinho" para demonstrar seus valores e ganhar adesão da população local. Mas percebi que somente algumas conseguiram obter sucesso pleno e respeito em suas iniciativas. Obviamente, o diferencial dessas foram a linguagem utilizada e a sua habilidade de se comunicar interculturalmente.

  • Presenciei situações engraçadas, por vezes trágicas: atrasos de cinco minutos interpretados por uns como uma ofensa nacional e com a maior normalidade por outros; intervalos para o cafezinho interpretados por uns como a preguiça no meio da tarde de segunda-feira e, por outros, como um momento crucial de decisões importantes no dia; reuniões intermináveis, onde uns achavam que haviam sido pouco produtivos, com muita discussão e poucos resultados, e outros achavam que havia sido criado um excelente relacionamento entre os participantes; almoços de uma hora e meia que, para uns, eram uma perda de tempo e significava que os envolvidos não queriam voltar ao trabalho, mas, para outros, eram oportunidades para fechar um negócio de bilhões de dólares.

  • Os julgamentos sempre estiveram presentes, e os diferentes grupos nunca haviam falado sobre o assunto ou procurado entender o ponto de vista do outro, bem como os porquês das suas atitudes tão culturalmente diferentes. A comunicação falhou entre eles e, consequentemente, seus projetos em comum. Apenas quando se percebeu a importância de se comunicar abertamente, fazendo perguntas ao outro (mais uma característica fundamental para uma carreira multicultural de sucesso), é que os grupos perceberam que, embora seus rituais e comportamentos diários fossem bem diferentes, todos tinham os mesmos objetivos e queriam alcançar as mesmas metas. Passaram a se respeitar e a não julgar de imediato aqueles que tinham hábitos diferentes dos seus.

Influenciar e ser influenciado. Apreciar a riqueza de juntar pessoas com diferentes histórias de vida para discutir e aprender juntas. Talvez tenham sido essas as maiores lições durante a minha carreira nômade até o momento. Talento e competência não bastam para se comunicar efetivamente com alguém de outro país, com outra realidade. É necessário ter sensibilidade cultural e querer aprender com o diferente. Respeitar o local onde se está, querer compreender a perspectiva do outro e viver a diversidade em sua plenitude não são tarefas fáceis – e você só consegue entender o real significado de tudo isso

quando se expõe a situações que tragam essas reflexões. Portanto, ainda que eu fique algumas páginas a compartilhar minhas experiências, é provável que você só compreenda o que eu escrevo quando se permitir viver de forma plena e aberta a beleza que a interação entre diversas culturas pode trazer. E, às vezes, não é preciso nem falar: um olhar ou um gesto já abrirão as portas para uma comunicação eficaz.

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